O Sonho

O tempo está nublado como nunca se viu, na cidade de Petrolina, no sertão de Pernambuco.
Por se situar no nordeste do Brasil, o senso comum diz que a cidade é quente, seca, desértica e pobre, mas ali havia alguém com o notebook ligado e um prato com pão e café com leite ao lado, um prato típico para a primeira refeição do dia, das classes baixas da região
No notebook escrevia algo sobre como via o mundo e o que sentia, pois tinha lido em algum livro esotérico que escrever como se sente em determinadas situações ajuda a entender a si mesmo.

Seu nome era Douglas, um estudante de computação que completou 20 anos no início do ano e é fã de música e café. Embora o prato que saboreava era típico, café era a bebida que mais gostava. Logo após vem a cachaça, o vinho, a cerveja, o chá e a vodka.

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Acho que deve estar pensando em como sei tantas coisas sobre ele…
Bom, manteremos em segredo até que eu me canse de esconder essa informação.
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Ele vestia um casaco cinza claro e depois de 5 minutos, o café acabou.
Se abaixou para guardar a xícara de café e o prato com pães quando notei que algo de estranho havia acontecido. Seus olhos não eram mais os mesmos quando levantou.

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Acordei!
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Voltando para a cena…
O lugar do rapaz agora era ocupado por uma moça de olhos claros e pele branca que olhava fixamente para a tela do computador enquanto lia algo que deixaram escrito no que parecia ser um editor de texto simples. Ela se espantou e sussurrou, tremendo os lábios, as palavras que estavam escritas na tela. Não ouvi direito, mas pude ler seus lábios.

“ Carta de suicídio:
Todos os dias eu acordo com o desejo de não levantar da cama;
Com o desejo de não mover meu corpo quando me chamam;
Eu quero deixar de existir, deixar de ser mal-tratado pela vida.
Parar de sonhar, de criar expectativas, de sentir medo e angústia.
Nessa parte, a mulher colocou a mão na boca para não gritar e começou a derramar lágrimas no chão como se tivesse uma torneira de água salgada atrás dos olhos. Eu conseguia sentir sua dor, eu conseguia sentir o quão triste ela estava, mesmo não sabendo quem era.
Depois de minutos chorando calada, ela continuou lendo a carta.

“ Não chorem por minha causa, vocês não são a raiz da minha infelicidade e também não influenciaram na minha decisão.
Eu continuo vos amando.
Só não consigo viver a vida que vivo.
Só não consigo ser mais Eu.
Acredito que a morte também pode ser uma saída para as frustrações
Ela é nossa amiga;
Está sorrindo pra a gente todos os dias.
A morte é um presente de Deus.
Adeus, mãe, pai, amigos.”


Após os últimos sussurros, a mulher caiu no chão duro de cerâmica clara chorando aos prantos e gritando alto, parecendo implorar a Deus que isso fosse só uma brincadeira de mal gosto do moço.
Será, ela, a mãe dele? - Provavelmente não, pois ele é moreno de olhos escuros e ela tem pele e olhos claros.
Namorada? - Talvez, pois aparenta ter a mesma idade.

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São 4am. Preciso dormir.
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O lugar do acontecido era o balcão de uma loja de bebidas em que ele trabalhava. A loja parecia ter fechado e uma luz amarela forte passava pelas brechas dos portões da loja. Tentei entrar, mas não consegui destrancar os portões da loja. Ainda assim, dava para ouvir sussurros de orações e choros de adultos e crianças no lugar. Parecia estar de madrugada pois não havia ninguém na rua. No entanto, muitas pessoas pareciam estar ali dentro.

Uma luz foi acesa no lado esquerdo da loja e vi mais de 100 pessoas saindo com um caixão de madeira em direção ao cemitério, que ficava um bloco à esquerda.
Muita gente amou esse homem. Será que realmente amou?
A morte dele ainda é um mistério.
Por quê?

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O quê?! Já são 7 da manhã?!
Preciso levantar para trabalhar na loja de bebidas.
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Nota do autor :

Meu amigo Pedro – Raul Seixas:

“Vai pro seu trabalho todo dia
Sem saber se é bom ou se é ruim
Quando quer chorar vai ao banheiro
Pedro, as coisas não são bem assim.

Toda vez que eu sinto o paraíso
Ou me queimo torto no inferno
Eu penso em você, meu pobre amigo
Que só usa sempre o mesmo termo.”

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Ao terminar de escrever a história, um enterro passou por minha casa, que fica próxima ao cemitério.



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