A carta vinda dos céus


1.

Um dia José andava pelas áreas pouco movimentadas do Recife antigo, à 1km do Marco zero, onde há uma rosa dos ventos desenhada no chão liso da praça, quando olhou para o céu distraído e viu voar uma carta branca que se assemelhava à um pombo brilhante com uma mancha vermelha no papo. Enquanto a carta caía devagar e prendia toda a atenção do rapaz, que tinha somente 20 anos e havia acabado de largar a faculdade de TI, sua respiração ofegava e sua visão parecia se escurecer como nunca havia escurecido antes, o que fez pensar que estava ficando cego; de repente, a carta começou a brilhar perto de seus olhos e todo o seu perímetro lentamente começou a ganhar cor.
O jovem perdeu a consciência por incontáveis segundos, o que pareceu serem muitos, e se viu no chão de joelhos com as mãos para cima como se estivesse abanando o rosto.

Após tomar consciência do que estava fazendo, olhou para baixo e derrubou as mãos para se levantar quando viu a carta à poucos centímetros de seus joelhos que já doíam por causa do chão de paralelepípedo do lugar. Sentindo-se violado por uma força que não conhecia, pegou a carta e colocou-a no bolso da camisa xadrez azul/preta que usava e notou seu corpo pesar mais do que o normal, ao tentar se levantar.

O jovem confuso com o que estava acontecendo, pulou para cima e olhou para todas as direções.
Não havia ninguém; as ruas estavam desertas.

Frustrado, andou pelas ruas do Recife até o terminal, onde pegou um ônibus para a integração e de lá, embarcou no metrô em direção ao bairro Cajueiro seco, próximo à Prazeres, em Jaboatão dos Guararapes.

Ao chegar em sua humilde mansão de 5 vãos, sua cadela começou a latir, ao notar sua presença, e para não acordar os vizinhos, José gritou com a vira-lata de cor branca com manchas cinzas pelo corpo:

“Se aquiete, Brisa!!!”

A cadela logo abaixou as orelhas e se afastou encolhendo o corpo, andando para sua casa de papelão e deitou-se na sua cama feita de travesseiro e camisas velhas do seu dono.

O moço, abriu a porta de casa, tirou a camisa, voou no controle do som pequeno que tinha e tirou sua camisa suada por causa do calor da metrópole no mês de fevereiro. Ligou o seu aparelho de som e olhou para as horas do relógio na parede rosa - Eram 7 horas da noite -, fechou os olhos, deitou-se no chão frio de cerâmica da sala e deu um play na música Ela me faz, de Rael da Rima:

[…]
Que eu levo minha vida assim, sempre agitado
Sempre aqui, ali, ai, mas nunca parado
Minha rotina é não ter rotina, tá ligado?
Às vezes eu tô sozinho, às vezes num aglomerado
Não uso muita coisa não, só um destilado
E de vez em quando dou uns dois no baseado
Já exagerei eu sei, coisa do passado
Que foi necessário para o meu aprendizado
Não vô pra igreja não, mas fui batizado
Hoje eu não frequento, mas tô bem acompanhado
Forças do universo me deixam equilibrado
Forças do além mantêm o meu corpo fechado
[...]”

Quando a música acabou, acabou adormecendo.


2.

[…]
“Eu que já andei pelos quatro cantos do mundo procurando,
foi justamente num sonho que Ele me falou.”

Às vezes você me pergunta
Por que é que eu sou tão calado
Não falo de amor quase nada
Nem fico sorrindo ao teu lado

Você pensa em mim toda hora
Me come, me cospe, me deixa

Talvez você não entenda
Mas hoje eu vou lhe mostrar
[...]”

Raul Seixas tocava alto na sala quando acordou, às 9 horas da noite do mesmo dia, faminto.
José procurou logo uma massa de milho para fazer cuscuz, que tanto gostava de comer com salsichinha e café; Levaram 20 minutos para que tudo estivesse pronto e sua janta estivesse na mesa esperando a primeira garfada

Após a refeição, subiu as escadas que levavam ao corredor pequeno que dividia o banheiro, 2 quartos e um espaço aberto com uma janela que dava a vista do muro das casas dos vizinhos; tomou um banho, foi para seu quarto e começou a pensar na carta que trouxera para casa; Lembrou que estava no bolso de sua camisa e não havia se quer lido alguma informação à respeito do remetente.

José morava com 2 amigos, Stefanny e Gabriel, que eram namorados e haviam partido para um mochilão pela América do Sul há 2 meses; Cresceu na cidade de Petrolina, no interior de Pernambuco e viajou para Recife em busca de melhores condições de vida. Seu sonho era morar no exterior e viajar o mundo como escritor; Não saiu para mochilar com seus colegas porque não se sentiu preparado o suficiente. afinal, tinha somente 30 reais na conta e ganhava só o suficiente para gastar com comida, transporte e moradia; Era fascinado por artes, ocultismo, matemática e computadores. O curso de TI que fazia era grátis e a área de computação não o atraia tanto quanto as artes.

O sonzinho da sala que podia ser ouvido do seu quarto começou a tocar sua playlist de cantos, músicas xamânicas e budistas para meditação, que o fez entrar em um transe que interrompeu os pensamentos sobre a carta.

Durante seu transe, ele se viu na catedral de Petrolina ajoelhado olhando para uma miniatura de Jesus Cristo feita de argila e ouvia asas batendo atrás de sua cabeça. Ele olhou para trás e viu um anjo bonito de cabelo crespo, negro que olhou fixamente para seus olhos por mili-segundos e desapareceu deixando uma luz branca flutuar, que lentamente desapareceu.

3.

Já era manhã quando se levantou com a música Metamorfose ambulante de Raul Seixas tocando.
José se perguntou quantas vezes aquele som teria repetido suas músicas, mas ignorou a hipótese de tentar calcular a resposta, pois sua cabeça foi tomada pelo pensamento de que dormiu enquanto estava em um transe e pouco se lembrava do suposto anjo que havia lhe aparecido.

Ainda sonolento e com o cabelo assanhado, desceu as escadas, desligou o som, pegou a carta no bolso de sua camisa e começou a olhar fixamente para ela.

Ela tinha um selo vermelho com o símbolo de ying-yang timbrado e o papel era grosso como uma cartolina; Na frente, em cor vermelha e letras minúsculas curvadas, dizia:

“Amor”

José virou franziu os olhos de curiosidade e virou a carta.

Na parte de trás, dizia:

“Destinatário: José
Remetente: ___ “

Ao ler isso, José sentiu uma mão segurar seu coração como se tivesse levado um susto e questionou mentalmente:

Quem será o remetente?
Meu nome aqui é uma coincidência ou fruto de uma brincadeira?

Antes de abrir a carta, sentou-se no chão, como de costume e olhou para o relógio na parede. Eram 7 da manhã do dia 7 de fevereiro de 2014.

Transferiu o olhar para suas mãos segurando a carta e abriu-a.





















4.

José estava de joelhos no que parecia ser um pequeno templo indiano dividido em várias salas e, na sua frente, havia uma estátua de madeira do deus criador Vishnu em uma de suas formas humanas – Krishna.

Ouvia-se mantras sendo recitados em voz alta nas salas vizinhas e haviam frases em hindi escritas nas quatro paredes do pequeno templo. Olhando para elas, José se viu capaz de entender o que queriam dizer sem ter o mínimo conhecimento da língua indiana, mas ele focou na que estava abaixo da estátua de Krishna e a leu em voz alta:

As obras inspiradas pelo amor dos nossos semelhantes são as que mais pesarão na balança celeste. 

Assim que o som de sua boca se dispersou e não podia mais ser ouvido, ele olhou para sua direita e viu a pessoa negra de asas que apareceu em seu sonho. Ele olhava fixamente para seus olhos e desapareceu como da primeira vez, deixando uma luz branca brilhar e desvanecer.

José sentiu novamente a mão no seu coração.


5.

José se viu de joelhos com a coluna inclinada para frente e a cabeça tocando no chão.
Levantou a cabeça e olhou para o horizonte.

Estava perto do nascer do sol.

Voltou seus olhos para o lado esquerdo e viu novamente o anjo em cima de uma pilastra cinza há mais ou menos 6 metros de distância. Dessa vez, o anjo não desapareceu; Abriu suas asas e o incrédulo José o ouviu sussurrar:

صلوا من أجل الله"
(saluu min ajl allah)

Para os ouvidos de José, pareceu árabe e sua mente traduziu instantaneamente.
O anjo havia dito: “Reze para Deus.”

A visão do jovem escureceu e sentiu que a mesma mão que havia tocado sua mão, agora tocava sua testa.

6.

“Mas o que? Adormeci novamente. Será que estou doente?” - murmurou, José.

Olhou para o relógio na parede e já eram 9 horas da manhã.
Brisa latia alto na frente da casa e a carta estava aberta no chão da sala, mas ele a ignorou.
Foi até a cozinha pegar um balde com ração e levou para a cadela que o aguardava com olhos arregalados e orelhas levantadas; Depois, pegou uma lata de doce de goiaba vazia que estava emborcada perto da casinha da vira-lata e a encheu de água para que Brisa pudesse matar sua sede.

Entrou para dentro da humilde mansão e preparou café com biscoitos de chocolate que haviam sobrado do café da manhã do sábado.

Começou a comer e recordar-se dos sonhos que teve.

Quem era o anjo?
Por que ele havia entendido coisas que estavam escritas em outros idiomas?
“Acho que estou viajando de mais. Preciso parar com as drogas” - Disse rindo sozinho.
Seus amigos ririam junto com ele, pois José era voluntário em uma organização que tenta combater o uso de drogas, o Proerd.

Após ter a primeira refeição do dia na pequena mesa de madeira da cozinha, voltou para a sala e viu parado o anjo dos seus sonhos em pessoa, mais real do que todas as vezes que tinha visto; José gritou o mais alto que pode e sentiu seu coração quase sair pela garganta de tão assustado que estava; O anjo tinha quase 1,90 e era forte como o pai do Chris, da série Todo mundo odeia o Chris; Suas asas estavam fechadas e o anjo sorriu para o jovem, fazendo-o se acalmar.

O rapaz, atordoado, resmungou: “Quem é você?”.
“Eu sou seu amigo, seu anjo guardião. Aquele que te observa desde o teu nascimento, José.” - respondeu o anjo com uma voz macia e grave, como a de um jovem conquistador quando fala perto de seu crush.

“Leia a carta que eu te enviei. Você será um mensageiro de paz no mundo como foram Jesus, Buda, Krishna, Madre Tereza, Chico Xavier e os outros que não é necessário citar.
Você é uma das encarnações de Vishnu, um filho de Deus dedicado, um messias judeu; Você é um peregrino religioso. Sua missão aqui na terra é propagar paz no mundo e pregar o amor onde quer que esteja. Lembre-se: Deus é amor.” - continuou o anjo guardião.

O jovem, paralisado, ouviu todas frases com atenção, mas chorou quando o anjo pronunciou a última palavra “amor”, pois lembrou que sempre foi carente de tal sentimento. Nunca se sentiu amado pelos pais ou pelas pessoas que amou; Por isso, sempre buscou a felicidade fora de si.

José sentiu uma dor no coração e abaixou a cabeça para se segurar em alguma coisa, pois lhe faltou equilíbrio; pegou no corrimão da escada que levava ao primeiro andar e olhou novamente em direção ao anjo; O guardião estava sorrindo e seu corpo desaparecia como a poeira desaparece após soprar um móvel empoeirado.

A luz que o guardião sempre deixava ao desaparecer se moveu para perto de José e o fez esquecer os pensamentos de falta de amor, por um minuto; a luz ficou parada diante de seu peito quando decidiu perfurar o corpo do jovem como uma agulha.

O rapaz desmaiou.










7.

Eu nasci há dez mil anos atrás
e não tem nada nesse mundo que eu não saiba de mais

Eu vi Cristo ser crucificado
O amor nascer e ser assassinado
Eu vi as bruxas pegando fogo para pagarem seus pecados,
Eu vi,
Eu vi Moisés cruzar o mar vermelho
Vi Maomé cair na terra de joelhos
Eu vi Pedro negar Cristo por três vezes diante do espelho
Eu vi,


Raul Seixas tocava quando acordou, ainda perto da escada.
“O sou ligou sozinho?” - Questionou sem se importar e com um sorriso no rosto.
“Eu adoro essa música.” - acrescentou.

Se levantou sorrindo e fez uma pequena oração sentado:

“Obrigado, Pai
Eu fui iluminado com tua luz
E agora vejo quanto tempo perdi da minha vida reprimindo o amor.
Propagarei o teu nome - Amor - por todo o mundo.

Amém.”

Levantou-se, abaixou o volume do som e pegou a carta que agora estava no centro da sala, fechada.
Abriu-a rapidamente sem muita cerimônia.

A carta dizia:

Tudo é permitido, menos interromper um ato de amor;
Viva como se o amor fosse a força que te mantém vivo;
Ame, pois eu sou Amor.

- O criador do universo.




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